top of page
Buscar

Gestão de Ativos e Manutenção Orientada a Valor: um guia prático para reduzir custos, elevar a confiabilidade e decidir melhor ao longo do ciclo de vida

  • Foto do escritor: Luciano Lima
    Luciano Lima
  • há 3 horas
  • 10 min de leitura

Resumo executivo


Em mercados altamente competitivos, a saúde econômica das operações depende de decisões de manutenção ancoradas em análise de custo–benefício–risco. Isso requer olhar o custo total de propriedade (TCO) e o custo do ciclo de vida (LCC) — da concepção ao descarte — e orquestrar políticas, indicadores e pessoas para entregar disponibilidade, qualidade e segurança ao menor custo possível. Este artigo traduz, em linguagem prática para gestores e engenheiros, conceitos essenciais da gestão de ativos e manutenção, e oferece um roteiro para aplicar LCC/TCO, estruturar o orçamento, escolher entre equipe própria e terceirização, otimizar sobressalentes e medir o que importa.


1) O novo papel da manutenção na gestão de ativos


Durante muito tempo, manutenção foi sinônimo de “consertar quando quebrar”. Hoje, empresas de classe mundial operam com programas preditivos e políticas baseadas em risco, integrando manutenção, operação, finanças, segurança e engenharia para maximizar valor do ativo ao longo do ciclo de vida. A ISO 55000 define gestão de ativos como a atividade coordenada para realizar valor a partir dos ativos — tangíveis e intangíveis — equilibrando custo, oportunidade e risco frente ao desempenho desejado. Na prática, isso significa planejar desde a necessidade do ativo (ainda no papel) até o descarte, com decisões que evitem “otimizações locais” e exponham o negócio a custos ocultos.


Ponto-chave: até 95% do LCC de um ativo é comprometido antes do comissionamento. Quanto mais cedo a manutenção e a confiabilidade entrarem no projeto, maior o potencial de economia futura.


O engenheiro de confiabilidade atua em três frentes: (1) eliminar perdas (priorizando gargalos e custo anormal), (2) gerenciar riscos com ferramentas como FMEA/FMECA, PHA, FTA e ETA, e (3) intervir no ciclo de vida (seleção, projeto, instalação, modificação) para “projetar a confiabilidade” desde a origem.


2) Do LCC ao TCO: como decidir com números (e contexto)



Custo de Ciclo de Vida (LCC) é a soma de aquisição + operação + manutenção + descarte, analisada no tempo, com desconto de fluxos de caixa ao valor presente e premissas documentadas sobre taxa de desconto, inflação e horizonte de análise. TCO amplia o escopo para todos os gastos de uso (administração, treinamento, suporte, conformidade etc.), servindo como sistema de suporte à decisão para comparar alternativas equivalentes de desempenho.


Passos práticos para LCCA (Life Cycle Cost Analysis): 


  1. Defina alternativas: não fazer nada, status quo, renovar/substituir, solução não-ativo, mudar nível de serviço, descarte.


  2. Estime custos: diferencie eventos únicos (investimento, overhaul, residual) e custos recorrentes (energia, O&M).


  3. Trate incertezas: cenários, sensibilidade, risco (probabilidade × consequência).


  4. Traga a valor presente: VPL com taxa de desconto real ou nominal (coerente com a forma como você tratou inflação).


  5. Compare: selecione a menor combinação de LCC que atenda metas de risco e serviço — e valide restrições de fluxo de caixa (solução ótima no papel pode ser inviável no caixa do ano).


Equação básica:

Documente se usa taxa real ou nominal e seja consistente ao tratar inflação.


Efetividade do sistema (para trade-offs) = Disponibilidade × Confiabilidade × Manutenibilidade × Capacidade/Desempenho. Use-a como “ponte” entre valor técnico e valor econômico ao comparar estratégias de manutenção (CBM, TBM, FBM) e janelas de substituição.


3) Estratégia de manutenção: do propósito aos planos



O objetivo da manutenção é preservar a função do ativo (capacidade, qualidade, segurança, meio ambiente) ao menor custo total, alinhado ao que o negócio precisa entregar — hoje e no futuro. Para construir a estratégia, responda: o que fazer, quando, quem faz e com que frequência, combinando políticas por falha (FBM), por tempo/uso (TBM/UBM), por condição (CBM) e manutenção projetada.


Boas práticas de governança:


  • Planeje e programe o trabalho (semanal), buscando ≥80% planejado e ≥90% cumprido; padronize fluxos e ordens de serviço para não perder dados.


  • Use CMMS para disciplinar preventivas, registrar custos e estoques, e suportar cálculos de LCC e benchmarking. Evite preventivas “de calendário” excessivas (sobremanutenção) e atrasos que empurram a operação para o reativo.


  • Estruture grandes reparos e reformas em horizonte de 3–5 anos, com base crítica (RCM, criticidade) e premissas de CapEx/OpEx.


4) Orçamento: como “vender” a verba (com método e dados)



Um bom orçamento de manutenção nasce de um programa definido, dados de 4–5 anos e separação clara de custos diretos, indiretos, gerais e custo de paradas (que nem sempre “aparecem” no centro de manutenção, mas afetam o negócio). Trabalhe com orçamento base zero (evita inércia de anos anteriores) e dê visibilidade a prioridades, riscos e backlog.


Checklist para robustez:


  • Mostrar demanda por tipo de manutenção (preventiva, por condição, estatutária, corretiva rotineira e incidentes).


  • Explicar desvios: idade, criticidade, ambiente, complexidade, disponibilidade de peças, horas de operação, mudanças no mix de produção.


  • Atrelar metas a indicadores e benchmarks (ver seção 7).


Dica: apresente dois cenários (base e conservador) com riscos e consequências explícitos (qual serviço será afetado se o corte vier?). A clareza reduz objeções e aumenta a chance de aprovação.

5) Pessoas, make-or-buy e contratos por desempenho



Nem tudo deve (ou pode) ser feito com equipe própria. Manutenção própria faz sentido em ativos críticos, quando o tempo de resposta, o controle e a padronização pesam mais. Já a terceirização é útil em atividades secundárias, tecnologias preditivas específicas, serviços auxiliares e quando a escala do fornecedor traz eficiência econômica. Mas cuidado com “pecados mortais” como terceirizar o que é core, escolher mal o fornecedor ou redigir mal o contrato.


Contrato baseado em desempenho (PBC):

  • Defina metas e KPIs claros, medição consistente e incentivos/penalidades.

  • Comece pequeno (escopo limitado), amadureça o modelo e só então amplie.

  • Decida quem mede (fornecedor, cliente, terceira parte) — há trade-offs de custo, controle e objetividade.


6) Estoques de sobressalentes: disponibilidade sem capital imobilizado excessivo



Peças críticas evitam paradas caras e tempo de espera por lead times longos. A boa política de sobressalentes equilibra nível de serviço (95–97%) com custo financeiro do estoque, usando classificação por criticidade, tempo de entrega, consumo histórico, MTBF/MTTR e quantidade econômica de pedido (EOQ). Para itens caros/raros, avalie recondicionamento, pool entre plantas e acordos de estoque com fornecedores.


Em muitas indústrias, indisponibilidade de peças responde por até 50% dos custos de manutenção — um sinal de que política e integração manutenção–suprimentos precisam evoluir.

7) Medindo o que importa: dos KPIs técnicos aos financeiros


Você não gerencia o que não mede. Use KPIs técnicos (disponibilidade, confiabilidade, OEE) e econômicos. Três razões de referência global:


  • Custo de Manutenção / Valor de Substituição do Ativo (EI1) → benchmark global 2–3%.


  • Custo Total de Manutenção / Custo Total de Fabricação → <10–15%.


  • Custo Total de Manutenção / Receita → 6–8%.


A norma EN 15341 propõe um portfólio de indicadores (EI1–EI24) para custos, estoques, mix de manutenção (corretiva/preventiva/condição), energia associada, terceirização etc. Use-os para comparar plantas, fazer diagnóstico e planejar melhorias.


Cuidado com o OEE: é útil, mas não captura, por si só, resultado financeiro. Vincule OEE a perda de margem por indisponibilidade e custo evitado por manutenção proativa.

8) Custos visíveis, ocultos e evitados



Redução de custos é diferente de custo evitado e de custo de oportunidade. Trocar um mancal antes da falha catastrófica reduz horas de mão de obra e peças envolvidas, além de evitar danos secundários (carcaça, selos, rotor). Este é um custo evitado. Quantifique a perda de margem por hora parada, as despesas extras e o material não aproveitado para precificar falhas e priorizar intervenções.


Não subestime intangíveis: satisfação do cliente, moral do time, erros de configuração pós-manutenção e “efeito iceberg” (custos ocultos que não aparecem nos relatórios, mas corroem resultado). Sempre que possível, traduza-os em risco monetizado (probabilidade × impacto) para entrar nos comparativos de LCC/TCO.


9) Transformação digital e Manutenção 4.0


A e‑manutenção integra CMMS + SCADA + monitoramento de condição (CM), analítica, mobilidade e compartilhamento de conhecimento (inclusive remoto) para prognosticar RUL (vida útil remanescente) e programar intervenções na janela ótima. RFID, realidade aumentada e visual analytics encurtam diagnóstico, melhoram a qualidade do dado e suportam decisões “no ritmo da operação”. O ganho? Menos reativo, menos estoque desnecessário, menos falhas catastróficas e mais disponibilidade com menos custo total.


10) Estudos de caso conceituais (como aplicar amanhã)


Caso A — Renovar agora ou operar por mais 5 anos?


Situação: ativo crítico, custos crescentes. Análise: modele cenários com VPL incluindo: (i) CapEx de substituição, (ii) O&M e energia, (iii) custos de indisponibilidade, (iv) risco de falhas e (v) valor residual. Em muitos casos, manter por 4–5 anos com melhorias de manutenção pode gerar ganhos táticos enquanto se refina o business case da substituição. A data “ótima” costuma ocorrer antes do fim físico — substituições tardias comem competitividade.


Caso B — Sobressalentes críticos sem imobilizar capital


Situação: peças de longa reposição parando a linha. Ação: classificação ABC/criticidade, estoque de segurança por consumo × lead time, EOQ para pedido e acordo de estoque no fornecedor para itens de baixo giro e alto valor. Monitore giro > 2–3 e nível de serviço ≥95%.


Caso C — PBC em utilidades


Situação: alto custo e baixa previsibilidade na manutenção de utilidades. Ação: contrato baseado em desempenho, com KPIs de disponibilidade, consumo específico de energia e tempo de resposta; bônus por superar metas e penalidades por não conformidade. Comece com escopo piloto e amplie após comprovar resultados.


11) Roteiro de 90 dias (ação prática)


Dias 1–30: Diagnóstico e dados


  • Consolidar inventário de ativos e criticidade (segurança, meio ambiente, produção, custo).

  • Extrair do CMMS: histórico de falhas, horas paradas, custo por ativo, mix de manutenção, backlog.

  • Mapear estoques: nível de serviço, giro, itens críticos e obsoletos.


Dias 31–60: Estratégia e orçamento base zero


  • Definir políticas por família de ativos (CBM/TBM/FBM) com janelas ótimas.

  • Montar orçamento por ativo com cenários e riscos explícitos.

  • Priorizar quick wins (ex.: alinhamento a laser, vibração, balanceamento, lubrificação) com custo evitado estimado.


Dias 61–90: Execução e governança


  • Implementar programação semanal (≥80% planejado; ≥90% cumprido).

  • Ativar indicadores EI (EN 15341) e benchmarks (EI1, custo/produção, custo/receita).

  • Iniciar piloto de PBC ou parceria de sobressalentes.

  • Plano de dados & digital: integração CMMS–SCADA–CM, analytics básica e painéis de decisão.


12) Conclusão


Gestão de ativos não é um novo nome para manutenção — é uma disciplina integrada que decide o que comprar, como operar, quando manter e quando substituir, sempre com o ciclo de vida como régua. Ao trazer a manutenção para a mesa do CAPEX, profissionalizar orçamento, quantificar riscos e custos evitados e medir com KPIs que importam para o negócio, você libera caixa, ganha disponibilidade e preserva margem. O resultado é uma operação mais resiliente e competitiva — hoje e no futuro.


Referência base


Este artigo foi elaborado a partir da apostila “Estruturação de Projetos de Manutenção — Gestão de Ativos: LCC (Life Cycle Cost), Custos da Manutenção”, que aborda objetivos da manutenção, engenharia de confiabilidade, LCC/TCO, orçamento, políticas de sobressalentes, contratos por desempenho, KPIs (incluindo EN 15341) e tendências de Manutenção 4.0, entre outros tópicos. Autor: Luciano Faria Lima


Referências Bibliográficas Citadas na Apostila


A lista abaixo consolida todas as obras, normas, artigos e autores mencionados ao longo da apostila “Estruturação de Projetos de Manutenção – Gestão de Ativos: LCC (Life Cycle Cost), Custos de Manutenção”.


Livros, Artigos e Autores Técnicos


  • Alexander, M.; Young, D. (1996). Outsourcing: lessons from the field.

  • Al-Najjar, B. (1996). Estudos sobre confiabilidade e manutenção orientada a custo.

  • Anderson, S. (1997). Cost management concepts applied to outsourcing decisions.

  • Andresen, T. (2001). Estudos sobre integração de custos tangíveis e intangíveis.

  • Assaf, S. et al. (2011). Quality factors influencing outsourcing decisions.

  • Baldwin, J. (2004). E-maintenance and remote support systems.

  • Baitheiemy, J. (2003). The seven deadly sins of outsourcing.

  • Bounfour, A. (1999). Pesquisas sobre falhas em terceirização e mudanças organizacionais.

  • Campbell, J. (1995). Measuring and improving service quality in maintenance outsourcing.

  • Cooper, R. (1990). Trabalhos sobre custos, despesas e contabilidade gerencial aplicados à manutenção.

  • Corbett, M. (1999). Estudos sobre terceirização e retorno econômico.

  • Diaz, A.; Fu, M. (1997). Inventory cost impacts in maintenance environments.

  • Eccles, R. (1995). The performance measurement manifesto.

  • Fontes, A. (2000). Fluxo de caixa e impactos financeiros da terceirização.

  • Galar, D.; Kumar, U. (2016). Maintenance Economics and Asset Management Fundamentals.

  • Greenberg, M. (2009). Estudos sobre avaliação e comunicação de riscos.

  • Haimes, Y. (1991). Estruturas de tomada de decisão e risco aplicado a ativos.

  • Huiskonen, J. (2001). Spare parts classification and inventory strategies.

  • Ivantysynova, L. et al. (2009). Estudos sobre investimentos estratégicos e análise intangível.

  • Jardine, A. K. S. et al. (1998). Condition-based maintenance optimization and prognostics.

  • Kaplan, S.; Garrick, B. (1981). Quantitative risk assessment methods.

  • Koskinen, K. et al. (2016). Convergence of SCADA, CMMS e condition monitoring.

  • Kremic, R. et al. (2006). A study of outsourcing and its risks.

  • Kumar, U. (1990). Pesquisas sobre falhas em mineração e impactos de projeto, operação e manutenção.

  • Kurdia, M. et al. (2011). Impact of outsourcing on competitiveness and core business alignment.

  • Lucas, H. (1999). Estudos sobre motivação e classificação de investimentos.

  • Lonsdale, C. (1999). Pesquisas sobre problemas em terceirização industrial.

  • Lua, E. et al. (2012). Obsolescence management across the asset lifecycle.

  • Nili, A. et al. (2013). Pesquisas sobre redução de custos via outsourcing.

  • Özsen, L.; Thonemann, U. (2015). Optimization models for spare parts and ordering policies.

  • Quélin, B.; Motlow, F. (1998). Drivers behind outsourcing decisions.

  • Segal, G. et al. (2003). Performance-based contracting models for infrastructure maintenance.

  • Shangguan, Z. (2013). Princípios de política de reposição de estoques.

  • Smith, R.; Hawkins, B. (2004). Lean Maintenance and Reliability Engineering.

  • Smith, R.; Mobley, K. (2011). Maintenance and Reliability Best Practices.

  • Srinivasan, G.; Srinivasan, M. (1986). Princípios de operação e manutenção eficiente.

  • Stankevich, N. et al. (2005). Maintenance contracting in public assets.

  • Stene-Erik, H. et al. (2013). Integration challenges: CMMS vs. SCADA vs. condition monitoring.

  • Thuesen, G. J.; Fabrycky, W. (2000). Engineering Economy, referência clássica para LCC.

  • Weber, A.; Thomas, R. (2005). Maintenance performance and financial impact models.

  • Wireman, T. (2005; 2015). Maintenance Best Practices & Benchmarking.


Normas Técnicas e Organismos


  • ISO 55000 / ISO 55001 — Asset Management – Overview, principles and terminology.

  • NAtional Research Council (NRC) — Modelo de ciclo de vida de ativos e TCO.

  • EN 15341 — Norma europeia para indicadores de desempenho da manutenção.

  • Organização Mundial da Saúde (OMS) — Diretrizes de contratos baseados em desempenho (PBC).

  • IEV – International Electrotechnical Vocabulary (IEC) — Termos de confiabilidade e manutenibilidade.


Relatórios, Guias e Fontes Institucionais


  • Maintenance Management Framework, Department of Housing and Public Works, Queensland (2012).

  • Reliability Assurance Programme Guidebook for Advanced Light Reactors, IAEA (2001).

  • Process Worldwide — Compilação de tendências da Manutenção 4.0.

  • Receita Federal do Brasil — Tabelas oficiais de depreciação de bens.


Trabalhos Acadêmicos Citados


  • Szkoda, M. (2014). Life Cycle Cost Analysis of Europe–Asia Transportation Systems.


 
 
 

Comentários


Assine e mantenha-se atualizado

Obrigado pelo envio

  • Grey LinkedIn Icon

© 2025 Engenharia & Negócios

bottom of page